06 setembro 2006

De uma mulher para todas as mulheres (e homens, claro)

Prestem atenção nisso.

"Para ter uma silhueta curvilínea, as mulheres do século XIX usavam o espartilho. Esse artefato bizarro consistia em uma armação feita de arame, varas de madeira e barbatanas de baleia revestida de tecido. Na frente e atrás, cordões e colchetes. A estrutura era colocada em volta do tronco da mulher, como uma armadura, e os cordões apertados até o limite. A tortura aparece em filmes como Titanic e ... E o Vento Levou --- neste, a escrava Mammy era a encarregada de espremer a cintura de Scarlett O'Hara. O objetivo do espartilho era pressionar a barriga para dentro, estufar os seios para cima e empurrar os quadris para trás. Ficava difícil respirar. Os movimentos se tornavam restritos. Algumas mulheres não conseguiam se sentar ou subir escadas. Não eram raros os casos de grávidas, que, com o uso do espartilho, abortavam. O artefato causava também problemas respiratórios e digestivos. Por que, mesmo assim, era tão usado? Por questões culturais. O padrão de beleza no século XIX era o corpo em forma de violão. As moças espartilhadas se tornavam desejáveis do ponto de vista dos homens e arranjavam bons casamentos. Quando as mulheres conseguiram se livrar dele, no início do século XX, foi uma revolução. E um tremendo alívio.
O espartilho faz parte daqueles objetos e costumes do passado, que, vistos com olhos de hoje, parecem estranhos, anedóticos ou mesmo bizarros. Façamos, no entanto, um exercício. Aquele proposto pelo escritor e filósofo italiano Umberto Eco no livro História da Beleza. Eco sugere observar os dias de hoje com o olhar de um cronista do futuro. Você está lendo o parágrafo acima em agosto de 2006, na edição 432 da revista ÉPOCA. Imagine o mesmo parágrafo daqui a cem anos, no número 5.632 da revista, com data de agosto de 2106:
"Para manter uma silhueta delgada, as mulheres do início do século XXI eram obcecadas por dieta, exercícios e cirurgias plásticas. De acordo com a Organização Mundial de Saúde, apenas 16% da população mundial estava com excesso de peso. Mesmo assim, um estudo da Universidade Harvard e da London School of Economics, duas prestigiadas instituições acadêmicas daquela época, dava conta de que 87% das mulheres se sentiam acima do peso. Por causa dessa distorção cognitiva, elas se submetiam a tremendos sacrifícios. Uma em cada dez danificava a saúde com dietas irresponsáveis. Outras usavam laxantes --- ou pior, drogas inibidoras de apetite obtidas sem receita médica.
A lipoaspiração, antiga prática da medicina que consistia na introdução de cânulas sob a pele para sugar a gordura, tornou-se o tipo mais popular de cirurgia plástica. Nas quatro últimas décadas do século XX, a incidência de anorexia triplicou entre as mulheres. Estranhas roupas, como a calça jeans tamanho zero, que ficaria apertada em emas e garças, tornaram-se uma obsessão. Para caber nelas, a mulheres faziam mais e mais dietas e cirurgias. Qual a razão dessa loucura? O corpo delgado era o padrão de beleza, simbolizado pela modelo brasileira Gisele Bündchen. Gisele, pelos critérios da Organização Mundial da Saúde, poderia ser considerada anoréxica. Não que as mulheres se tornassem mais desejadas. Crônicas de tempos idos mostram que os homens ainda preferiam o estilo mais "cheinho".
Magras, no entanto, elas se sentiam poderosas e causavam inveja às outras mulheres."

Eu sou um produto do meu tempo. Todas nós. Queria ter o corpo da Lindsay aí em cima, ou da Gisele, em detrimento da saúde e até do que meu par ideal irá achar. Tudo isso porque, hoje, aprendo, em propagandas, filmes, e desfile de roupas que é mais bonito ser assim. Mas esqueço que meu quadril nunca será o da Bundchen, porque não tenho ascendência alemã, e sim negra. Minha cintura também nunca será quadrada, e minhas coxas nunca serão magras, porque a minha família inteira tem o corpo assim. Também não vou crescer mais do que isso e me tornar a Ana Hickman, linda, alta, loira, esquálida, e com cara de paisagem --- toda vez que eu me produzir nesse intuito.
Ainda assim, há quem me ache bonita do jeito que eu sou, não como numa capa de revista. Porque eu não sou modelo nem celebridade, eu sou euzinha, simples assim.

É bom que muitos pensem junto comigo. =)

2 comentários:

Carla disse...

Padrões de beleza?? Tô fora!! Sou do jeito que sou e isso me basta. E me sinto bonita, jovem, alto astral e amada. Não é, Lula??? Bjus.

Mário disse...

Interessante isso... Ditadura da beleza através dos tempos. Muda a época mas, a paranóia continua. :-)