13 julho 2006

Eu como “quase” tudo.

Quando eu era garoto, eu comia quase de tudo. Lembro que um dos pratos que minha mãe fazia, e minhas irmãs adoravam, era macarrão alho e óleo. Eu odiava. Não comia de jeito nenhum.
Sabendo disso, minha mãe sempre fazia uma comida à parte pra mim, sempre avisando que “um dia isso vai acabar, você vai ver.”
Uma ameaça que entrava por um ouvido e saia pelo outro, afinal eu era o filho varão do papai e “podia” tudo.
Aos 12 anos lembro que sai atrasado pra escola e não tive tempo de tomar o café da manhã. Tudo bem, minha mãe me deu um dinheirinho e eu comeria algo na cantina.
Mas...pra que gastar a grana com coisa tão ‘supérflua’ como alimento se eu poderia guardar pra comprar coisas mais importantes, como figurinhas pros meus álbuns, por exemplo?
Milongueiro como sempre fui, descolei um pedaço (ínfimo) do lanche de meu “melhor amigo”, um muquirana de mão cheia.

Cheguei em casa lá pelas 2 horas da tarde, amarelo de fome.
Logo que bati a porta da frente, ouvi a voz de minha mãe, perguntando “ta com fome, filho?”, “morrendo...” respondi eu.
-Você não comeu nada na escola?
-Só uns biscoitos, menti (precisava preservar o tutu).
-Tudo bem, disse ela, vá lavar ás mãos enquanto eu tiro a comida.
Mesmo tronxo de fome, estranhei palavras tão ‘compreensivas’ dela. Mas quem entende as mães?
Sentei à mesa, já passando do amarelo moribundo pro roxo ‘cefini’. Ô fome danada. Eis que chega o prato. Fundo, e transbordando de...macarrão alho e óleo, seguido de um aviso:
-Só tem isso pra comer. Viver ou morrer, escolhe!
-Frita um bife, mãe? (angustiado).
-Não tem!
-Um ovo; só um e eu fico satisfeito!?
-Não tem!
-Arroz puro?
-Não tem!
-...Impuro? (desespero total)
-Nécas! Só tem isso que está no prato. Experimente! Você NUNCA experimentou!?

Lágrimas nos olhos e pensamentos voando: “Mãe ingrata! Como pode ela tratar assim o filho do papai? O segundo ‘homem’ daquela família?”

Olhei firmemente para o prato. Nunca, em toda a minha vida, tinha visto um prato TÃO cheio naquela casa.
Crueldade. Sacanagem pura. E partiu de minha PRÓPRIA mãe!
Lembrei-me da ameaça que sempre acompanhava meus pratos especiais quando tinha aquele ‘troço’ e pensei: “desafio, é? Vamos lá...
Primeira garfada...hum! Segunda...(parece bom)...terceira...acho que dá. Quarta, quinta...e lá se foi o prato todinho.

Acho que minha mãe estava escondida em algum canto, me observando, já que surgiu imediatamente à última garfada, dizendo: “Puxa vida! Esqueci de oferecer um queijinho ralado...fica mais gostoso ainda.”
-Tudo bem, mãe. Põe só mais um pouquinho, com queijo, agora.
E não é que ficava mais gostoso?

Hoje em dia, faço um macarrão alho e óleo dos deuses. Minha filha adora.

Depois daquela deliciosa experiência acrescentei mais um prato às minhas preferências. Acho que não faltava nenhum.

Aos 18 anos fui servir o exército (PE).
Ordem unida o dia todo, todos os dias. Marchar...marchar...pagar ‘apoio’ quando erra...20, 30, 40, 50 apoios, ou correr uns 500 metros até a árvore indicada pelo sargento, subir nela, pegar a quantidade de folhas frescas que ele determinara, no tempo determinado.

Hora do rancho. Ô fome danada. Entrar em forma, aguardar o avanço (sob sol ou sob chuva), pegar a bandeja, receber a ‘comida’, sentar e...começar. Uma eternidade. Quantas vezes eu não ouvi um “premiadooo!” e alguém erguia uma barata pela antena, jogava num canto e todos continuávamos a comer, após os risos.

Quando isso acontecia (quase sempre), eu me lembrava do de-li-ci-o-so macarrão alho e óleo que minha mãezinha fazia, e o ‘fresco’ aqui deixou de comer por tanto tempo, até a descoberta do ouro.

Pois é! Aprendi! Hoje como de tudo.

(Quer dizer...quase tudo...”Grandes lábios” com piercing? Isso não dá...sinto muitíssimo).

3 comentários:

Carla disse...

Hahahahaha! Adorei seu post, Lulinha! Quando meu filho Lucca era menor, como você, dizia: "Mas eu não gosto!" Eu peguntava: "Já experimentou?" E ele: "Nãooooo..."
Hoje, come de tudo, até sopa de pedra. Os gostos mudam e a gente se adapta. Também como de tudo, mas o que não encaro, nunquinha, é a tal da dobradinha. E quanto aos grandes lábios com piercing, olha lá, hein? Já experimentou?

Claudio disse...

Post fantástico. Um texto excelente com um tema do cotidiano, muito bem escrito (como se fosse novidade nesse blog).

Adorei.

abs

Sounds of Silence disse...

Sou teu fã, menino. De verdade que sou. Bendita a hora em que quase sem querer nos cruzamos (ôpa!) no universos bloguiniano...