13 julho 2006

Assassinos de si próprios.



Ontem, 4ª feira, às 17:45 hs. estava eu, como sempre, seguindo pela Av. Paulista, conjecturando se deveria ou não traçar uma feijoada. Adoro, mas meu problema é o pós. Tinha compromisso que exigiria atenção, leveza e desempenho e uma feijóca eliminaria isso tudo em mim. Por horas.

Ao chegar defronte a um prédio, ao lado do da Caixa Econômica, vi uma multidão que não deveria estar lá. Absorto em meus pensamentos gastronômicos, pedi licença e fui atravessando...
Estanquei! O grito abafado de ‘cuidado!’ só chegou ao meu cérebro segundos depois da visão estarrecedora. Eu quase tropecei num corpo de mulher, vestido, jogado no chão, em meio a uma poça de sangue. De bruços, meio que de lado, com os olhos abertos e...olhando fixamente pra mim..
Devia ter ocorrido há pouco tempo, já que o sangue, a poça, ainda se movia lentamente, aumentando.

Automaticamente fiz uma oração silenciosa, pedindo à Deus perdão pelo ato (impensado?) daquela criatura, que, muito provavelmente, estava ali ainda, em desespero e sofrendo a pior de todas as dores: a do arrependimento.
Sei que me precipito no julgamento, ela poderia ter sido jogada por alguém, mas meus instintos mediúnicos me dizem que não, além de ter observado que ela estava sem sapatos. Suicidas que se atiram sempre os tiram. Não fiquei ali muito tempo.

Já tinha visto pessoas mortas, duas, antes.
Um homem que trabalhava num andaime que cedeu e o precipitou do 14° andar, e um outro, atropelado.
Mas a imagem da mulher me marcou. Talvez pelo impacto da visão, sem prévio aviso.
Sofro de ansiedade e, periodicamente (não sempre) de depressão. Esta última vem, principalmente, quando vejo pessoas sofrendo. Absorvo instantaneamente aquele sofrimento...e la vem ela.
Bom...segui meu caminho, agora encucado no que aquela pobre mulher pensou durante a queda. É óbvio que se arrependeu. Li diversos livros psicografados que relatam o sentimento dos suicidas, conscientes e inconscientes. Os “conscientes” foram unânimes em dizer que no exato instante do desfecho, se arrependeram.

Infelizes. Se soubessem que o sofrimento que pensavam terminar nesta vida os seguiria por muitos e muitos anos ainda, acrescidos do ato estúpido, procurariam outra saída.

Fui pra casa. Sem feijoada e com desculpas àquele compromisso.
Sem apetite pra nada.

2 comentários:

Carla disse...

Há uns dois meses, uma mulher pulou do oitavo andar daqui do prédio onde trabalho. Como chegou cedo à consulta do psiquiatra, estava angustiada e não aguentou esperar e pulou. Penso que há que se ter muita coragem e muito desespero também. O caminho fica ali, interrompido. E seguimos nossas vidas com a certeza de que a linha entre a vida e a morte é tênue, sem direito a olhar pra trás.

Sounds of Silence disse...

Lula... Depois deste seu post penso mais ainda em falar mais sobre o Andreoli. O que seria a última parte acabei de postar. Mas aconteceram coisas de logo depois das postagens originais até hoje... E acho que está na hora de compartilhar. Mas ainda não sei se posso... Mas, vou tentar.

Sobre o tema do teu texto, eu ouvi ou li em algum lugar: O suicídio é uma solução definitiva prá um problema passageiro.

Abração, meu amigo.